Você percebeu uma ferida na perna que começou pequena, como uma espinha ou bolha, e em poucos dias cresceu rápido, ficou muito dolorosa e não cicatrizou com curativos comuns?
O pioderma gangrenoso afeta de 3 a 10 pessoas por milhão a cada ano no mundo. A boa notícia é que, com o diagnóstico correto e tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue controlar a doença e alcançar a cicatrização das feridas.
Quem diagnostica e trata Pioderma Gangrenoso?

O Dr Gabriel Fernandes é médico dermatologista em São Paulo e associado da Sociedade Brasileira de Dermatologista.
Com o seu Registro de Qualificação de Especialidade pelo Conselho Federal de Medicina, o Dr Gabriel é especialista em tratar as doenças da pele, cabelo, couro cabeludo e unhas.
Na sua residência médica no Hospital São Paulo, ele atendeu pacientes com pioderma gangrenoso.
O Que É Pioderma Gangrenoso?
O pioderma gangrenoso é uma doença inflamatória rara da pele. Apesar do nome, não é causada por infecção nem por gangrena. O nome foi dado em 1930, quando os médicos Brunsting e O’Leary descreveram a condição pela primeira vez e acreditavam que tinha origem infecciosa. Hoje sabemos que não é o caso.
O PG pertence ao grupo das dermatoses neutrofílicas (doenças de pele causadas pelo acúmulo de neutrófilos, um tipo de célula de defesa do corpo). O que acontece é o seguinte: o sistema imunológico entra em desequilíbrio e produz substâncias inflamatórias em excesso, como interleucinas 1 e 17 e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-alfa). Essas substâncias atraem grandes quantidades de neutrófilos para a pele, causando destruição do tecido e formação de úlceras (feridas abertas) dolorosas.
A doença afeta principalmente adultos entre 20 e 50 anos e é mais frequente em mulheres. Crianças e adolescentes respondem por cerca de 4% dos casos.
Um dado importante: em mais de 50% dos casos, o Pioderma Gangrenoso aparece junto com outra doença de base. As associações mais comuns são:
- Doenças inflamatórias intestinais (retocolite ulcerativa e doença de Crohn), presentes em 20% a 30% dos pacientes
- Artrites inflamatórias (artrite reumatoide, artrite psoriásica, espondilite anquilosante)
- Doenças hematológicas (gamopatias monoclonais por IgA, leucemias, síndromes mielodisplásicas)
- Outras condições autoimunes (lúpus eritematoso sistêmico, hepatites, doença de Behçet)
Em 25% a 50% dos casos, o Pioderma Gangrenoso é idiopático. Isso significa que nenhuma doença associada é encontrada.
Sinais e Sintomas: Como Reconhecer o Pioderma Gangrenoso
Reconhecer o pioderma gangrenoso cedo faz diferença no resultado do tratamento. A doença tem uma apresentação clínica variada, com quatro subtipos principais.

Forma ulcerativa (clássica): é a mais comum, representando cerca de 85% dos casos. Começa como uma pequena pápula (lesão elevada), pústula (espinha com pus) ou bolha, que rapidamente progride para uma úlcera dolorosa. A ferida tem características marcantes:
- Bordas violáceas (roxas ou azuladas) bem definidas
- Borda solapada, ou seja, a pele ao redor da ferida parece escavada por baixo
- Fundo necrótico e purulento (com tecido morto e secreção)
- Dor intensa, frequentemente desproporcional ao tamanho da ferida
- Localização preferencial nas pernas (região pré-tibial), mas ocorre em qualquer parte do corpo
Forma bolhosa (atípica): aparece como bolhas superficiais, mais comuns nas mãos e no rosto. Está frequentemente associada a doenças hematológicas.
Forma pustulosa: apresenta-se como múltiplas pústulas dolorosas, mais comum em pacientes com doença inflamatória intestinal.
Forma vegetante: é a mais branda. Aparece como úlceras superficiais, menos dolorosas, com bordas menos agressivas. Responde melhor ao tratamento.
Um fenômeno característico do Pioderma Gangrenoso é a patergia. Isso significa que a doença piora com trauma. Um corte, uma cirurgia, uma picada de agulha ou até mesmo um curativo mal feito na área afetada geram novas lesões ou aumentam as existentes. Por isso, procedimentos cirúrgicos desnecessários nas lesões são contraindicados e desbridamentos agressivos devem ser evitados.
Outros sintomas que acompanham as lesões de pele incluem febre, dor articular, sensibilidade localizada e cansaço generalizado.
Causas e Fatores de Risco
A causa exata do pioderma gangrenoso ainda não é totalmente compreendida. O que se sabe é que a doença envolve múltiplos fatores:
Predisposição genética: existem relatos de Pioderma Gangrenoso em famílias e irmãos. Mutações no gene PTPN6, que regula a atividade dos neutrófilos, foram identificadas em modelos experimentais com lesões semelhantes ao PG. Algumas síndromes genéticas raras, como a síndrome PAPA (artrite piogênica, PG e acne), confirmam o componente genético da doença.
Desregulação imunológica: o sistema imune inato (primeira linha de defesa do corpo) funciona de forma exagerada. A produção descontrolada de TNF-alfa, interleucinas 1, 8, 17, 23 e 36 leva ao recrutamento massivo de neutrófilos para a pele. Existe também desregulação das células T e da via do complemento (sistema de proteínas que auxilia na defesa imunológica).
Fatores desencadeantes conhecidos:
- Trauma ou cirurgia na pele (patergia), responsável por até 30% dos casos
- Doenças sistêmicas associadas (inflamatórias intestinais, hematológicas, reumatológicas)
- Uso de certos medicamentos (propiltiouracil, isotretinoína em situações específicas)
- Estresse emocional e físico
Fatores de risco:
- Sexo feminino
- Idade entre 20 e 50 anos
- Presença de doença inflamatória intestinal
- Histórico de artrite inflamatória
- Doenças hematológicas
- Pós-operatório (especialmente após cirurgias mamárias, abdominais ou ortopédicas)
Como É Feito o Diagnóstico
O diagnóstico do pioderma gangrenoso é um dos maiores desafios em dermatologia. Não existe um exame de sangue ou de laboratório que confirme a doença de forma definitiva. O diagnóstico é feito pela combinação de achados clínicos, exclusão de outras causas de úlcera e achados da biópsia. Estima-se que até 39% dos casos são diagnosticados de forma errada inicialmente.
Exames complementares geralmente solicitados:
- Biópsia da borda da úlcera (obrigatória)
- Cultura de tecido para descartar infecção
- Hemograma completo, proteína C-reativa (PCR), velocidade de hemossedimentação (VHS)
- Eletroforese de proteínas (para pesquisa de gamopatia monoclonal)
- Sorologias para HIV e sífilis
- Colonoscopia (para investigar doença inflamatória intestinal, quando indicada)
- Avaliação reumatológica e hematológica quando necessário
Diagnóstico diferencial (condições que imitam o Pioderma Gangrenoso): úlceras venosas, vasculites, vasculopatias, infecções bacterianas e fúngicas profundas, úlceras factícias (autoinfligidas), carcinoma de células escamosas, leishmaniose e outras infecções tropicais. No Brasil, onde infecções de pele são frequentes, a exclusão de causas infecciosas é ainda mais importante.
Tratamentos Disponíveis para Pioderma Gangrenoso
O tratamento do pioderma gangrenoso é individualizado de acordo com a gravidade da doença, o tamanho e número das úlceras, a velocidade de progressão e as doenças associadas. Até o momento, nenhum medicamento tem aprovação regulatória específica para o PG, e o tratamento é baseado em evidências de estudos observacionais, séries de casos e poucos ensaios clínicos controlados.
Tratamento tópico (para lesões pequenas e iniciais)
Para lesões pequenas, superficiais e em estágios iniciais, o tratamento local é a primeira escolha:
- Corticosteroides tópicos de alta potência aplicados diretamente na ferida e nas bordas
- Tacrolimo tópico (inibidor de calcineurina), usado como alternativa ou complemento aos corticoides
- Injeção intralesional de triancinolona (20 mg/mL), com aplicações mensais, que apresenta bons resultados em lesões localizadas
- Cuidados com a ferida: curativos que mantenham o ambiente úmido, sem desbridamento agressivo, evitando trauma adicional pela patergia
Tratamento sistêmico de primeira linha
Para úlceras grandes (acima de 4 cm²), múltiplas ou com progressão rápida, o tratamento sistêmico é necessário:
- Corticosteroides orais: A melhora costuma ser percebida nos primeiros dias de tratamento. A redução gradual da dose é feita ao longo de semanas a meses, conforme a resposta clínica.
- Ciclosporina: Apresenta melhora significativa com cicatrização em 1 a 3 meses. Exige monitoramento da pressão arterial e da função renal pelo risco de nefrotoxicidade
Tratamento sistêmico de segunda e terceira linhas
Quando a primeira linha não é suficiente ou quando é preciso reduzir a dose de corticoides, outras opções entram em cena:
- Dapsona: usada como poupadora de corticoide em casos mais leves
- Metotrexato: imunossupressor convencional com evidência de uso no PG
- Azatioprina: outro imunossupressor convencional, frequentemente usado como poupador de corticoide
- Micofenolato mofetil: alternativa para pacientes intolerantes a outras opções
- Sulfassalazina: usada especialmente quando há doença inflamatória intestinal associada
- Colchicina: usada em formas pustulosas
Terapias biológicas e novas perspectivas (2024-2025)
Os medicamentos biológicos representam um avanço significativo no tratamento do PG, especialmente para casos refratários ou quando a doença está associada a condições que também respondem a essas terapias.
Convivendo com Pioderma Gangrenoso: Guia Prático
Viver com PG exige atenção diária às feridas e adaptação de hábitos. Aqui estão orientações práticas para melhorar sua qualidade de vida.
Cuidados com as feridas:
- Mantenha as lesões limpas com soro fisiológico ou água limpa. Evite produtos irritantes como álcool e água oxigenada diretamente na ferida.
- Use curativos que mantenham o ambiente úmido (curativos de espuma, alginato de cálcio ou hidrofibras). A cicatrização é melhor em ambiente úmido.
- Nunca faça desbridamento agressivo das lesões. O trauma piora a doença por conta da patergia. Desbridamento autolítico (com curativos úmidos que amolecem o tecido morto naturalmente) é o mais seguro.
- Troque os curativos com cuidado, evitando aderências que possam traumatizar a borda da ferida.
- Se precisar de curativo em área de perna, meias ou bandagens compressivas só devem ser usadas com orientação médica, pois a compressão inadequada piora a dor.
Controle da dor: a dor do PG é frequentemente intensa e desproporcional ao tamanho da ferida. Analgésicos simples nem sempre são suficientes. Converse com seu médico sobre opções adequadas para controle da dor. O controle da inflamação com o tratamento sistêmico é o principal fator de melhora da dor.
Alimentação: não existe dieta específica comprovada para o PG. Mantenha uma alimentação equilibrada, rica em proteínas (essenciais para cicatrização), frutas, verduras e legumes. Se você tem doença inflamatória intestinal associada, siga as orientações do gastroenterologista.
Atividade física: mantenha-se ativo dentro do que a dor e a localização das feridas permitem. Se as lesões são nas pernas, atividades de baixo impacto como natação, bicicleta ergométrica ou exercícios sentado ajudam a manter a forma sem sobrecarregar as áreas afetadas. Evite esportes de contato ou atividades que causem trauma na pele.
Saúde mental: o PG tem alto impacto emocional. Feridas crônicas, dolorosas e visíveis afetam a autoestima, os relacionamentos e a vida social. Procure apoio psicológico se sentir que a doença está afetando sua saúde mental. Grupos de apoio online para pacientes com doenças raras de pele também ajudam.
Cuidados antes de procedimentos cirúrgicos: se você precisa fazer qualquer cirurgia (mesmo uma extração dentária), informe o cirurgião sobre seu diagnóstico de PG. A patergia significa que qualquer trauma cirúrgico gera o risco de novas lesões. O uso preventivo de corticoides ou imunossupressores antes e após procedimentos cirúrgicos eletivos deve ser discutido com seu dermatologista.
Monitoramento contínuo: mantenha o acompanhamento regular com dermatologista. Tire fotos das lesões para acompanhar a evolução. O sinal de Gulliver (crescimento de pele saudável da borda da úlcera em direção ao centro, deixando cicatrizes cribiformes) indica boa resposta ao tratamento.
Mitos e Verdades Sobre Pioderma Gangrenoso
MITO: “Pioderma gangrenoso é uma infecção de pele e precisa de antibióticos.”
VERDADE: Apesar do nome “pioderma” (que remete a pus e infecção), o PG não é causado por bactérias. É uma doença inflamatória do sistema imunológico. O uso de antibióticos sem indicação não melhora o quadro e atrasa o diagnóstico correto. Antibióticos só são necessários se houver infecção secundária na ferida, confirmada por cultura.
MITO: “Se a ferida não cicatriza, é só fazer uma cirurgia para limpar.”
VERDADE: O desbridamento cirúrgico agressivo é contraindicado no PG. O fenômeno da patergia faz com que o trauma cirúrgico piore a lesão, aumente a úlcera ou crie novas feridas. Muitos pacientes têm a doença agravada por cirurgias bem-intencionadas feitas antes do diagnóstico correto. O tratamento é clínico, com imunossupressores.
MITO: “Pioderma gangrenoso é contagioso e passa para outras pessoas.”
VERDADE: O PG não é contagioso. Não é causado por vírus, bactéria ou fungo. É uma doença do sistema imunológico do próprio paciente. Você não precisa se preocupar com transmissão pelo contato, por toalhas, pela piscina ou por qualquer outro meio. Seus familiares e colegas não correm risco de “pegar” a doença.
MITO: “Pioderma gangrenoso tem cura definitiva.”
VERDADE: O PG é uma doença crônica e recidivante. Estudos mostram que até 30% dos pacientes apresentam recorrência das lesões, mesmo após tratamento bem-sucedido. A boa notícia é que, com tratamento adequado, a maioria dos pacientes alcança a cicatrização das feridas. Mais de 50% atingem cicatrização completa em um ano de tratamento. O acompanhamento médico contínuo é fundamental para prevenir e tratar recidivas.
MITO: “Pioderma gangrenoso só afeta idosos.”
VERDADE: O PG afeta principalmente adultos jovens, com pico entre 20 e 50 anos de idade. A doença é mais frequente em mulheres. Crianças e adolescentes representam cerca de 4% dos casos. A idade avançada não é fator de risco predominante. Qualquer pessoa, em qualquer faixa etária, com os sintomas descritos deve ser avaliada.
MITO: “Se o exame de biópsia não mostra nada específico, não é pioderma gangrenoso.”
VERDADE: A biópsia do PG mostra um infiltrado neutrofílico, que não é exclusivo dessa doença. Não existe achado histopatológico (visto ao microscópio) que confirme o PG com certeza. O diagnóstico é clínico, baseado na combinação de critérios (como o Consenso de Delphi e o escore PARACELSUS), na exclusão de outras causas e na resposta ao tratamento com imunossupressores. Uma biópsia “inespecífica” não descarta o diagnóstico.
Quando Procurar Ajuda Médica
Procure um dermatologista com urgência se você apresentar qualquer uma das seguintes situações:
- Uma ferida na pele que surgiu rapidamente (em dias) a partir de uma lesão pequena e não cicatriza com curativos comuns
- Úlcera dolorosa com borda roxa/azulada, especialmente nas pernas
- Ferida que piora após tentativas de limpeza cirúrgica ou curativos agressivos
- Úlceras que aparecem após cirurgias ou procedimentos médicos, em locais inesperados
- Múltiplas feridas que surgem ao mesmo tempo em diferentes partes do corpo
- Ferida crônica associada a sintomas como diarreia, sangue nas fezes, dor articular ou cansaço intenso (sugestivos de doença associada)
Procure atendimento de emergência se houver: febre alta associada às feridas, sinais de infecção secundária (secreção fétida, vermelhidão que se espalha rapidamente ao redor da ferida, calafrios), ou piora rápida e agressiva das lesões.
Se você já tem diagnóstico de PG, procure seu médico se notar novas lesões, se as feridas pararem de melhorar com o tratamento atual, ou se precisar de qualquer procedimento cirúrgico.
O pioderma gangrenoso é uma doença rara, mas real e tratável. O diagnóstico correto, o tratamento precoce e o acompanhamento multidisciplinar (dermatologista, gastroenterologista, reumatologista e hematologista, conforme necessário) fazem diferença na evolução da doença e na sua qualidade de vida.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica profissional. Sempre procure um dermatologista para diagnóstico e tratamento adequados. Em caso de sintomas graves, procure atendimento médico imediatamente.
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