Dr. Gabriel Fernandes

A psoríase é uma das doenças de pele mais incompreendidas e estigmatizadas que existem. Se você chegou até aqui, provavelmente conhece alguém que convive com essa condição ou talvez tenha notado algumas alterações em sua própria pele que despertaram curiosidade. O mais importante que você precisa saber desde o início é que a psoríase não é contagiosa, não é causada por falta de higiene e, definitivamente, não é “só um problema estético”.

Quem trata psoríase?

foto do dr gabriel, que trata psoríase nas unhas, ungueal

O Dr Gabriel Fernandes é médico dermatologista em São Paulo e associado da Sociedade Brasileira de Dermatologista.

Com o seu Registro de Qualificação de Especialidade pelo Conselho Federal de Medicina, o Dr Gabriel é especialista em tratar as doenças da pele, cabelo, couro cabeludo e unhas.

Na sua residência médica no Hospital São Paulo, ele atendeu muitos pacientes com diversos tipos e formas de psoríase.

No consultório, o Dr Gabriel trata de pacientes com esta condição que conseguem acesso a medicamentos eficazes seja via o sistema público ou privado.

O que Realmente é a Psoríase?

psoríase no cotovelo e como conseguir medicamentos para ela

Para entender a psoríase, imagine que sua pele funciona como uma fábrica bem organizada. Normalmente, as células da pele nascem nas camadas mais profundas e levam cerca de 28 dias para chegar à superfície, onde descamam naturalmente de forma imperceptível. Na psoríase, é como se essa fábrica entrasse em modo acelerado: as células são produzidas muito rapidamente, chegando à superfície em apenas 3 a 4 dias.

O resultado dessa “pressa” é o acúmulo de células na superfície da pele, formando as características placas espessas, avermelhadas e cobertas por escamas prateadas ou esbranquiçadas. É como se você estivesse pintando uma parede e, em vez de esperar uma demão secar completamente, aplicasse camada sobre camada rapidamente – o resultado seria uma superfície irregular e com excesso de tinta.

Essa aceleração acontece porque o sistema imunológico, que deveria nos proteger de invasores externos, fica confuso e começa a atacar as próprias células da pele.

Fatores de Risco e Desencadeadores: Compreendendo as Causas

  • Fatores genéticos: Aproximadamente 30% das pessoas com psoríase têm histórico familiar da doença. Se um dos pais tem psoríase, a chance de desenvolver a condição é de cerca de 15%.
  • Fatores infecciosos frequentemente atuam como gatilhos, especialmente em crianças e adolescentes. Infecções por estreptococos beta-hemolíticos do grupo A são os desencadeadores mais comuns, podendo levar ao desenvolvimento da psoríase gutata. Outras infecções como candidíase, infecções virais (HIV, hepatite) e até mesmo infecções dentárias podem contribuir para o aparecimento ou agravamento da doença.
  • Estresse físico e emocional representa um dos principais fatores desencadeadores modificáveis. Situações como perda de emprego, morte de familiares, divórcio, problemas financeiros, ou mesmo eventos positivos mas estressantes como casamento ou mudança de casa podem precipitar episódios de psoríase.
  • Traumas físicos na pele, conhecidos como fenômeno de Koebner ou resposta isomórfica, podem fazer com que a psoríase apareça exatamente no local de ferimentos, queimaduras, cirurgias, tatuagens ou mesmo arranhões. Esse fenômeno ocorre em aproximadamente 25% das pessoas com psoríase e geralmente aparece entre 7 a 14 dias após o trauma inicial.
  • Medicamentos específicos podem desencadear ou agravar a doença. Entre os principais estão os beta-bloqueadores (usados para pressão alta e problemas cardíacos), lítio (utilizado no tratamento do transtorno bipolar), antimaláricos (como a cloroquina), anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs) quando usados cronicamente, e a retirada abrupta de corticosteroides sistêmicos.
  • Fatores relacionados ao estilo de vida incluem tabagismo (que não apenas aumenta o risco de desenvolver psoríase, mas também piora sua gravidade), consumo excessivo de álcool (que pode interferir com tratamentos e agravar a inflamação), obesidade (que está associada a formas mais severas da doença), e deficiência de vitamina D (comum em pessoas com psoríase e que pode contribuir para a disfunção imunológica).

Principais Tipos de Psoríase e Como Reconhecê-los

paciente negra com psoríase couro cabeludo
  • A psoríase em placas representa aproximadamente 80% de todos os casos e é caracterizada por lesões bem delimitadas que se assemelham a pequenas elevações na paisagem da pele. Essas placas geralmente aparecem nos cotovelos, joelhos, couro cabeludo e região lombar, apresentando coloração que varia de rosa a vermelho intenso, dependendo do tom de pele da pessoa. Por cima dessas áreas avermelhadas, encontramos as escamas características de cor prateada ou esbranquiçada que, quando removidas cuidadosamente, podem deixar pequenos pontos de sangramento conhecido como sinal de Auspitz.
  • A psoríase inversa surge nas dobras do corpo como axilas, virilha, região sob os seios e entre as nádegas. Diferentemente da psoríase em placas, essa variante apresenta-se como áreas vermelhas e lisas, sem as escamas típicas, devido à umidade e atrito constante nessas regiões. Esta forma pode ser particularmente desconfortável devido à sensibilidade da pele nessas áreas.
  • A psoríase pustulosa é uma forma mais rara e severa, caracterizada pela formação de pústulas (pequenas bolhas com pus estéril) sobre áreas avermelhadas da pele. Pode ser localizada, afetando principalmente palmas das mãos e plantas dos pés, ou generalizada, representando uma emergência médica que requer tratamento hospitalar imediato.
paciente com psoríase nas unhas, ou psoríase ungueal
  • A psoríase ungueal afeta as unhas das mãos e dos pés, causando alterações como pequenos furinhos na superfície da unha (semelhantes a picadas de alfinete), espessamento, mudanças de coloração (que pode variar do amarelo ao marrom), formação de linhas ou sulcos transversais, e em casos mais severos, descolamento da unha do leito ungueal.

Tratamentos Disponíveis: Opções Terapêuticas Modernas

O arsenal terapêutico para psoríase expandiu-se dramaticamente nas últimas décadas, oferecendo esperança renovada para pacientes com diferentes graus de severidade da doença. A abordagem de tratamento segue uma estratégia escalonada, começando com terapias mais simples e progredindo conforme a necessidade e resposta do paciente.

  • Tratamentos tópicos representam a primeira linha de tratamento para psoríase leve a moderada, sendo aplicados diretamente sobre as lesões. Os corticosteroides tópicos variam em potência desde leves (como hidrocortisona) até muito potentes (como clobetasol), sendo escolhidos conforme a localização e severidade das lesões. Áreas sensíveis como face e dobras requerem corticosteroides mais suaves, enquanto lesões espessas em cotovelos e joelhos podem necessitar formulações mais potentes.
  • Fototerapia utiliza luz ultravioleta controlada para tratar a psoríase, sendo uma opção eficaz para casos moderados a severos. A UVB banda estreita (UVB-NB) é considerada o padrão ouro da fototerapia, oferecendo eficácia excelente com menor risco de efeitos colaterais comparada à UVB banda larga ou PUVA (psoraleno + UVA). O tratamento geralmente requer três sessões por semana durante 12 a 16 semanas, com monitoramento cuidadoso da dose para evitar queimaduras.
  • Medicamentos sistêmicos convencionais são reservados para casos moderados a severos ou quando tratamentos tópicos e fototerapia não são suficientes. 
  • Terapias biológicas revolucionaram o tratamento da psoríase moderada a severa. Estes medicamentos são proteínas desenvolvidas para bloquear especificamente moléculas envolvidas na inflamação da psoríase.
  • Terapias emergentes incluem inibidores de JAK (quinases Janus) orais, que oferecem a conveniência da administração oral com eficácia comparável aos biológicos injetáveis. Estas medicações representam uma nova classe terapêutica que pode simplificar significativamente o tratamento da psoríase moderada a severa.

Estratégias de Autocuidado e Manejo Diário

O sucesso no controle da psoríase vai muito além dos medicamentos prescritos, envolvendo uma abordagem holística que inclui cuidados específicos com a pele, modificações no estilo de vida e estratégias de enfrentamento psicológico.

  • Cuidados com a pele formam a base do manejo diário da psoríase. A hidratação adequada é fundamental, pois a pele ressecada tende a descamar mais e pode tornar-se mais suscetível a irritações e fissuras. Hidratantes espessos, preferencialmente sem fragrâncias artificiais, devem ser aplicados pelo menos duas vezes ao dia, idealmente logo após o banho quando a pele ainda está úmida para “selar” a hidratação.
  • A escolha do hidratante deve considerar a presença de ingredientes benéficos como ureia (que ajuda a amolecer escamas), ácido lático (que promove esfoliação suave), ceramidas (que restauram a barreira cutânea) e ácido hialurônico (que retém umidade). Evitar produtos com álcool, fragrâncias artificiais e conservantes agressivos pode prevenir irritações adicionais.
  • Práticas de banho requerem atenção especial. Água muito quente e banhos prolongados podem exacerbar o ressecamento e irritar as lesões psoriásicas. Temperatura morna (não superior a 37°C) e duração limitada a 10-15 minutos são recomendadas. Adicionar substâncias como aveia coloidal, sal marinho, bicarbonato de sódio ou óleos de banho pode proporcionar alívio adicional.
  • Durante o banho, evitar esfregar vigorosamente as lesões é crucial. Usar sabonetes suaves, preferencialmente syndet (sabonetes sintéticos) ou sabonetes com pH próximo ao da pele (5,5-6,5) minimiza a irritação. Após o banho, secar a pele com toques suaves, evitando friccionar, e aplicar hidratante imediatamente.
  • Exercícios físicos regulares oferecem múltiplos benefícios: redução do estresse, melhora do humor através da liberação de endorfinas, controle do peso (importante pois obesidade pode agravar a psoríase) e melhora da saúde cardiovascular (relevante pois psoríase aumenta o risco cardiovascular). Atividades como caminhada, natação, ciclismo ou qualquer exercício que a pessoa aprecie podem ser incorporados gradualmente.
  • Considerações nutricionais incluem adoção de padrões alimentares anti-inflamatórios. A dieta mediterrânea, rica em peixes gordurosos, frutas, vegetais, nozes, azeite de oliva e grãos integrais, pode ajudar a reduzir a inflamação sistêmica. Limitar o consumo de alimentos pró-inflamatórios como açúcares refinados, alimentos processados, gorduras trans e excesso de ômega-6 pode ser benéfico.
  • Proteção solar é paradoxal na psoríase: embora exposição solar controlada possa melhorar as lesões, queimaduras solares podem desencadear novas lesões através do fenômeno de Koebner. Usar protetor solar FPS 30 ou superior em áreas não afetadas, enquanto permite exposição controlada das lesões, representa o equilíbrio ideal.

Quando Buscar Ajuda Profissional e Expectativas de Tratamento

Indicações para consulta dermatológica:

  • Suspeita inicial de psoríase baseada no aparecimento de lesões características, piora significativa de lesões existentes, expansão rápida das lesões para novas áreas corporais, desenvolvimento de sintomas sistêmicos como febre ou mal-estar geral, aparecimento de dor articular (possível artrite psoriásica), e interferência significativa da doença nas atividades diárias ou qualidade de vida.
  • Situações de emergência que requerem atenção médica imediata incluem desenvolvimento de psoríase pustulosa generalizada (com pústulas disseminadas e sintomas sistêmicos), psoríase eritrodérmica (envolvimento de mais de 90% da superfície corporal), e sinais de infecção secundária nas lesões.

Preparação para a consulta envolve documentar a evolução das lesões através de fotografias, listar todos os medicamentos em uso (incluindo suplementos e medicamentos de venda livre), anotar possíveis fatores desencadeadores identificados, preparar perguntas sobre opções de tratamento e impacto na qualidade de vida.

Expectativas realísticas de tratamento devem considerar que psoríase é uma condição crônica sem cura definitiva, mas com excelente potencial de controle. Objetivos terapêuticos incluem redução da extensão e severidade das lesões, alívio de sintomas como coceira e dor, prevenção de complicações como artrite psoriásica, melhora da qualidade de vida e redução do risco de comorbidades associadas.

A resposta ao tratamento varia significativamente entre indivíduos e pode requerer ajustes periódicos. Alguns pacientes respondem rapidamente a tratamentos simples, enquanto outros necessitam terapias mais complexas para alcançar controle adequado. Paciência e aderência ao tratamento são fundamentais para otimizar resultados.

Monitoramento e acompanhamento regulares são essenciais. Consultas de seguimento permitem avaliar resposta terapêutica, ajustar tratamentos conforme necessário, monitorar efeitos colaterais de medicações, e abordar novos sintomas ou preocupações. Frequência das consultas varia conforme severidade da doença e tipo de tratamento utilizado.

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